Pendurado pelos pés em algum lugar novo e desconhecido, o jovem inconsciente sonhava com alguma lembrança ruim. Uma figura diminuta estava encolhida em uma cadeira bem maior que a própria. Num grande corredor de paredes brancas, a figura tentou esconder seus olhos medrosos. Figuras maiores iam e vinham pelo corredor, sem notar no pequeno garotinho encolhido sobre a cadeira. Ele olhava para os lados periodicamente e uma das figuras grandes estava sempre lá, parada e encarando-o. A moça bem vestida andou na direção do menino e abaixou-se até ficar na altura dos olhos dele. Ela lhe perguntou seu nome e sentou-se ao seu lado. O menino já sabia o que ouviria, já ouvira o mesmo sobre a mãe, mas daquela vez fora o pai que lhe contara. Ele havia percebido no olhar da babá que algo errado estava no ar. A pouca idade não fazia dele um bobo e, quando a babá o largou naquele banco gelado de hospital, tudo ficou bem claro. Mas, antes, restara ao jovenzinho o pai. E dessa vez? Então a mulher ao seu lado era o que chamavam de assistente social, ela era a pessoa que cuidava desse tipo de coisa e sempre se vestia como quem procura um emprego. Ele nunca esqueceria o rosto daquela moça, nem o jeito como ela o acolheu enquanto ele chorava ou tampouco o dia em que ela o deixou na porta do inferno.
O jovem sente um cutucão em meio a suas costelas e acorda alarmado, abrindo, lentamente, os olhos que, ofuscados pela claridade, recusavam-se a enxergar. Esses foram os poucos segundos prévios a um grito de horror.